A IMPORTÂNCIA DO REGISTRO NA FORMAÇÃO HUMANA E PROFISSIONAL

Sabe-se que no decorrer da história a humanidade usou o registro por meio de diferentes recursos e finalidades, evidenciando sempre o objetivo de comunicar uma ideia, ação, fato ou o que sentiam no espaço que estava inserida. Na formação docente, isso não foi diferente, e o registro foi ganhando força, e hoje sabemos a importância de bons registros, seja para o professor avaliar de forma assertiva seus estudantes, seja para os estudantes, se tornarem leitores, escritores e comunicadores competentes. Esse objetiva construir pontes de reflexão, sobre a importância do registro na formação docente, no seu desenvolvimento profissional e no desenvolvimento de crianças e jovens que embarcam na vida acadêmica.

INTRODUÇÃO

A humanidade começa a se comunicar a partir das paredes de uma caverna, quando os homens primitivos faziam desenhos, que transmitiam ideias dos povos que ali viviam, seus desejos e necessidades, seus hábitos e costumes. Nas margens do Nilo, surge o papiro, material usado para representar os hieróglifos, por meio de desenhos e símbolos, ideias eram expressadas, e tantas outras formas de se comunicar foram desenvolvidas e aprimoradas em cada sociedade até chegar aos instrumentos tecnológicos do século XXI, que a velocidade de comunicação e desenvolvimento de ideias chega quase que instantaneamente nos lugares mais remotos do nosso planeta.

O registro sempre fez e faz história na vida de todos nós, mas na vida acadêmica ela tem real importância, que muitas vezes não é levada em consideração, nem pelos docentes, nem pelos estudantes.

Em um de seus escritos, Jussara Hoffman nos provoca sobre essa questão, quando escreve que o registro é sobretudo a imagem de um trabalho ao relatarmos um processo efetivamente vivido, naturalmente encontramos as representações que lhe deem verdadeiro sentido.

A provocação de Jussara só nos evidencia que o registro no trabalho pedagógico é um instrumento reflexivo que a equipe docente de qualquer instituição escolar utilizará como um documento, que objetiva a voz e vez das crianças e jovens, suas conquistas, descobertas, conhecimentos prévios e desejos.

A importância do registro na instituição acadêmica só terá real relevância a partir do momento que a equipe docente compreender o ser em processo de construção de conhecimento, o ser cognoscente, ou seja, que a equipe tenha a capacidade de conhecer, refletir sobre os conceitos, procedimentos e atitudes, que ao elaborar um planejamento deve pensar e repensar o papel do ensinante, do aprendente e do objeto de conhecimento. Para isso, é necessário fazer memória, e qualquer registro nasce da observação, com olhar atento e sensível, com olhar sério e dinâmico. É uma ação complexa, mas acima de tudo leal com qualquer processo de aprendizagem.

REGISTRAR PARA DOCUMENTAR SABERES

Educar para conhecer e para fazer, isso a educação convencional tem dado conta. Mas, educar para conviver, transformar e para ser talvez seja o maior desafio dos educadores. Madalena Freire (1995),nesse trecho nos oferece o ato de ressignificar o nosso papel em sala de aula e que nosso grande aliado será o registro, pois é ele que dará possibilidade de conhecer e compreender os processos, as potências e limitações das crianças e jovens, e possibilitará uma trajetória de aprendizagem significativa.

Para que seus registros sejam potentes nos processos de aprendizagem do grupo que é responsável, o professor precisa de instrumentos metodológicos, sua prática exige organização, disciplina, rotina e principalmente disponibilidade, do fazer, do refazer, de se reinventar, de ler, de escrever, reaprender a olhar. Sua rotina deve ser baseada nas ações do olhar atento e sensível, do registrar sem préconceitos, sem interpretação pessoal, registrar  os fatos, narrar histórias, refletir sobre o que viu, ouviu e registrou, avaliar o que foi produtivo e o que é necessário modificar, reformular, substituir e com todos os dados coletados, planejar um novo rumo para construção de saberes.

REGISTRO COERENTE E SINCERO A DOCUMENTAÇÃO PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A documentação pedagógica surge no cenário da Educação Infantil aproximadamente na década de 90, quando o trabalho desenvolvido nas escolas da primeira infância pela cidade Reggio Emilia na Itália, é reconhecida internacionalmente, pela qualidade das experiências educativas proporcionadas às crianças, que tem como mentor Loris Malaguzzi.

Malaguzzi (1999), a princípio utilizava apenas pequenos registros de tudo o que acontecia com as crianças e valorizava brilhantemente a cultura da infância. O objetivo era conversar e discutir sobre esses registros com outros professores e a coordenação pedagógica nos momentos de formação docente. Aos poucos, esses registros foram analisados cuidadosamente e foram divididos em três funções importantes para a prática pedagógica na primeira infância:

• A função política de possibilitar o diálogo entre a escola, equipe docente/gestora com as famílias/responsáveis e a comunidade;

• A função de sistematizar o registro das produções das crianças, a partir de uma escuta ativa e sensível, individual ou em grupo, dando visibilidade à cultura da infância, criando memórias afetivas;

• E por última, mas de fundamental importância, a função de elaborar material pedagógico para a reflexão da aprendizagem das crianças pequenas.

A documentação nasce da observação, uma observação que traduz concepções, valores, intenções, desejos. A observação do professor atenta e sensível tem a possibilidade de compreender como o processo de aprendizagem acontece e dá condições para desenvolver cada vez mais as potencialidades das crianças.

A partir das observações e da escuta, também fundamental para traçar objetivos e estratégias, o docente fará registros em diferentes modalidades, para que as experiências significativas se eternizem nas trajetórias das crianças e famílias, registros por meio de imagens, fotografias, vídeos, murais, portfólios, mapas conceituais, “blocões”, relatórios escritos, individuais ou de pequenos grupos. Os registros realizados em diferentes modalidades, cada qual com sua intenção e objetivo, oportuniza ao professor a conversa entre a teoria e a prática, são recursos riquíssimos para reflexão do trabalho realizado e do que poderá realizar.

Pode-se denominar como documentação pedagógica, a matéria-prima para uma filosofia educacional em que a criança é protagonista em todo o processo, ela é potente no sentido de investigar, interagir, construir e reconstruir novos conhecimentos. O professor oportuniza o processo a partir dessa ferramenta que norteia todo o seu trabalho, no sentido de reflexão e qualificação de tudo o que é desenvolvido.

 A documentação pedagógica que respeita as fases de desenvolvimento da criança, oferece possibilidade de criação, investigação e interação, dá uma identidade ímpar à instituição, apresentando explicitamente seu papel na vida das crianças pequenas, seja pela produção do professor, do gestor ou da própria criança, pois ela é construída por todos os membros que pertencem aquele espaço de descobertas e saberes, é uma troca constante, profunda e acima de tudo verdadeira, que constrói memórias afetivas em cada ato concretizado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considera-se que todo registro realizado pela equipe docente dentro da instituição acadêmica, seja ela de crianças ou jovens, tem uma importância tão potente no processo de aprendizagem, no desenvolvimento da autonomia e na independência que dá voz e vez ao que se ensina e ao que se aprende.

É ato de reflexão sobre o conhecer, o saber e o ser, é ato de respeito com o aprendente, com o ensinante e o objeto de conhecimento.

Rauch (2005), escreve que duas palavras-chave para qualquer processo de documentação são memória e identidade. Se não temos memória de onde estivemos, do que fizemos e de qual é a nossa história, não temos identidade definida. Sua reflexão nos evidencia o quanto o registro coerente e sensível, utilizado dentro do ambiente escolar, conta a história de como o desenvolvimento acadêmico é visto por seus protagonistas, crianças, jovens e equipe docente, o quanto o que é observado, analisado, registrado e planejado dará resultados eficazes na sociedade em que vivemos.

O registro coerente e coeso, não é algo que se aprende do dia para a noite, não há curso com passo a passo de quando e como fazer, é o exercício, é a prática, é a troca. Tudo isso só acontece se o docente sair do lugar, buscar o novo, ler, pensar, refletir. Ele precisa ter cuidado, ter atenção, apostar na competência e na capacidade do ser humano. Tem que ter fé, resiliência e disponibilidade de também saber ouvir.

Registrar com cuidado e competência, dá vida ao ambiente escolar, dá vida ao que é visto e sentido, dá vida a construção de novos conhecimentos e vira memória viva na mente e no coração de todos os envolvidos.

Termino meu registro com as sábias palavras de Pierre Janet, Discutir é refletir com os outros; refletir é discutir consigo mesmo. Que essa reflexão nos provoque no sentido de olhar nossos registros e nos perguntar…estou no caminho certo? Tem qualidade o que escrevo sobre meus estudantes? O que observo, analiso e planejo, verdadeiramente respeita as potencialidades e limitações do meu grupo?

Precisamos rever nossa prática para que nossos registros percorram os terrenos do conhecimento e evidenciem o que meu grupo tem de melhor a oferecer.

REFERÊNCIAS

BARDANCA, Ángeles Abellera; Isabel Abellera Bardanca. Os fios da Infância. 1ª Edição, São Paulo: Phorte, 2018.

BRAGA, Regina Maria; Maria de Fátima Silvestre. Construindo o leitor competente: Atividades de leitura interativa na sala de aula.1ª Edição, São Paulo: Peirópolis, 2002.

GENESCÁ, Ana Carpenter; CID, Lúcia de Araújo. Pró-Saber: Imaginação e Conhecimento.1ª Edição, Rio de Janeiro: Edições Pró-Saber, 2013.

MALAGUZZI, Loris. História, ideias e filosofia básica. In: EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Lella; FORMAN, George. As Cem Linguagens da Criança: a abordagem de Reggio Emilia na

educação da primeira infância. Porto Alegre: Artmed,1999.

OSTETTO, Luciana Esmeralda. Registros na Educação Infantil: Pesquisa e prática pedagógica. 1ª Edição, Campinas, São Paulo: Papirus, 2017.

SÃO PAULO (SP), Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Currículo da Cidade: Educação Infantil. São Paulo: SME/COPED, 2019.

SHORES, Elizabeth F.; Cathy Grace. Manual do Portfólio: Um guia passo a passo para professores. 1ª Edição, Porto Alegre: ARTMED, 2001.

Ligia Priscila Pacheco

Publicado na Revista Mais Educação – volume 3 – número 5 – Julho de 2020

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