O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA ESCRITA

Quando nos referirmos ao processo de alfabetização, é preciso verificar os eixos que permeiam todo o processo, ou seja, quem ensina e como ensina e em quem aprende e como aprende. Foi Emília Ferreiro, psicolinguista argentina, doutoranda de Jean Piaget, que com seu trabalho e estudos desvendou a trajetória pela qual as crianças aprendem a ler e escrever, o que levou muitos professores a rever eficientemente sua prática. Esse artigo tem o objetivo de fazer os professores alfabetizadores refletirem mais uma vez sobre a importância das suas ações no processo de construção de escrita nas séries iniciais, traçar novos rumos pedagógicos ao elaborar seu planejamento e ofertar estratégias e intervenções que favoreçam uma construção de escrita potente, prazerosa e significativa na vida de seus estudantes.

INTRODUÇÃO

No decorrer do processo histórico a humanidade construiu progressivamente sistemas de representação, pois sentia a necessidade de registrar acontecimentos, sendo um instrumento para transmitir informações e ideias.

As distintas civilizações usaram diferentes formas de representação em seus registros, uma delas foi a escrita ideográfica, desenvolvida na Mesopotâmia há cerca de seis mil anos. Foi lá também que os sumérios desenvolveram uma escrita silábica, para representar a língua suméria falada. Já os fenícios criaram um sistema menor de caracteres que representavam o som consonantal. Posteriormente os gregos adaptaram o sistema de escrita fenício, acrescentando as vogais e surgindo assim uma escrita alfabética. Em seguida a escrita grega foi adaptada pelos romanos, que originou nosso alfabeto.

Sabe-se que o sistema alfabético que qualifica a escrita é o resultado das correspondências entre sons e letras, processo em que os sons da fala são representados por letras e as letras são transformadas em sons. Por esses motivos, o desenvolvimento da aquisição do sistema alfabético é algo complexo, que necessita de metodologias ativas e coerentes com o contexto que o aprendente está inserido. A concepção que o professor tem de educação, de processos de desenvolvimento, fará toda a diferença no sucesso de seus estudantes na aquisição da leitura e da escrita.

Os estudos realizados pelo doutor em Educação e fonoaudiólogo Jaime Luiz Zorzi nos apresenta que para aprender a escrita, a criança precisa compreender e se apropriar de uma série de variedades linguísticas, requer desenvolver habilidades e competências de entendimento no que diz respeito:

• A relação entre letras e sons, porque as letras representam sons: ora um som pode ser representado por uma letra, ora uma mesma letra pode representar vários sons e há até um mesmo som que pode ser escritor por várias letras;

• A correspondência quantitativa entre letras e sons, ou seja, cada palavra escreve com um número de letras, que nem sempre corresponde ao número de fonemas;

• Que pronunciamos as palavras de uma forma e escrevemos de outra;

• A direção da escrita e a posição da letra no ato de registramos;

• Uma letra ser escrita após a outra;

• A segmentação, a pausa e a separação no ato de escrever;

• Discriminar e nomear as letras que compõem nosso alfabeto;

• Que escrevemos da esquerda para a direita, na forma horizontal.

Podemos então dizer que todas essas variedades linguísticas estão intimamente ligadas a quatro habilidades fundamentais para o processo de alfabetização, ou seja, a compreensão, o vocabulário, conhecer o código (alfabeto) e desenvolver a consciência fonológica.

E como realizar um trabalho em sala de aula que contemple essas quatro habilidades? Que seja prazeroso e significativo? Que atenda a heterogeneidade de qualquer sala de aula? Que transforme o sujeito em um leitor e escritor competente?

Bem, é um trabalho árduo, de muita reflexão, de muito estudo e acima de tudo, de desconstruir o que durante décadas a escolarização brasileira acreditou como método adequado que ensino, em que a criança era receptora e o professor transmissor de conhecimento. Um método em que o material didático (cartilha) tinha a concepção de língua escrita como transcrição da fala, em que as famílias silábicas eram exaustivamente repetidas e seus textos apresentavam frases desconectadas. Quem não lembra da clássica frase “A avó viu a uva de Ivo”? Um método em que o aprendizado está fora do sujeito, não há valorização do conhecimento prévio de cada um, suas experiências e hipóteses.

Essa desconstrução é iniciada no momento em que conhecemos o trabalho e as contribuições de mais de trinta anos de pesquisas de Emilia Ferreiro, psicolinguista argentina, que revolucionou o trabalho da construção da escrita. Ela comprova com suas experiências e registros, que a criança pensa sobre a escrita, que devemos dar voz e vez a esses pensamentos. Que a escrita acontece no decorrer de um processo. Que a criança é protagonista. Que se aprende a ler lendo e escrever escrevendo.

As contribuições de Emilia Ferreiro estão presentes na BNCC na área de conhecimento de Língua Portuguesa, pois nela a construção do código escrito está dividida em quatro categorias:

• Leitura e escrita (compartilhada e autônoma), em que as crianças tenham acesso aos diferentes gêneros, sejam autores, fazendo uso da escrita convencional ou não, que se comportem como leitores e escritores, mesmo sem saber as convenções da língua;

• Oralidade, dialogada face a face, através de mídias digitais, repertório histórico e social, seja para selecionar informações, estabelecer relações sociais, usar de práticas discursivas e reflexivas, no âmbito ético, estético e político.

• Análise linguística/semiótica, envolve as demais categorias, sendo a sistematização do código escrito propriamente dito, sendo a diferenciação das regularidades e irregularidades da língua.

LETRAMENTO E ALFABETIZAÇÃO

A poesia mexe com nosso imaginário e sentimentos, toca o coração da gente. Magda Soares nos presenteou com a tradução de um poema provocativo sobre letramento, escrito pela estudante Kate M. Chong, provocativo no sentido do professor rever seu percurso formativo, sair da sua zona de conforto e reconduzir o seu papel de mediador de conhecimentos, provocativo de oferecer repertório rico, oferecer, não é o verbo correto, mas extrair da nossa cultura o que temos de mais rico, mais significativo, transformador de conceitos e procedimentos em atitudes leitoras e escritoras.

Sintam-se provocados com o poema “O que é letramento?”:

Letramento não é um gancho
em que se pendura cada som enunciado,
não é treinamento repetitivo
de uma habilidade,
nem um martelo
quebrando blocos de gramática.

Letramento é diversão
é leitura à luz de vela
ou lá fora, à luz do sol.
São notícias sobre o presidente
O tempo, os artistas da TV
e mesmo Mônica e Cebolinha
nos jornais de domingo.

É uma receita de biscoito,
uma lista de compras, recados colados na geladeira,
um bilhete de amor,
telegramas de parabéns e cartas
de velhos amigos.

É viajar para países desconhecidos,
sem deixar sua cama,
é rir e chorar
com personagens, heróis e grandes amigos.

É um atlas do mundo,
sinais de trânsito, caças ao tesouro,
manuais, instruções, guias,
e orientações em bulas de remédios,
para que você não fique perdido.

Letramento é, sobretudo,
um mapa do coração do homem,
um mapa de quem você é,
e de tudo que você pode ser (SOARES, 2019, s.p).

O poema nos provoca tão profundamente nos apontando para o significado mais profundo do que verdadeiramente é o letramento, nos mostra que é muito mais que alfabetização, é estado, uma condição, é o sujeito que fez suas andanças percorrerem diferentes gêneros e portadores textuais, sabendo desempenhar papéis de leitor e escritor sempre que a vida lhe exigiu, é ter prática viva, coerente, constante. É o indivíduo empoderado que fez da leitura e da escrita, objeto cultural de ascensão profissional e social.

Já a alfabetização é processo importante, mas não determinante para o sucesso acadêmico e profissional, é o ato de aprender a ler e escrever, decodificar o código.

A premissa apresentada acima sobre alfabetização e letramento mais uma vez coloca a prática dos professores das séries iniciais em constante avaliação, não no sentido de medir conhecimento, mas de dar valor ao que é adequado e inovar o que não apresenta proveito pedagógico, é mais uma vez perceber que a intencionalidade dele ir além do decodificar, mas do incorporar, compreender e se transformar.

FASES DA ESCRITA

Temos uma imagem empobrecida da língua escrita: é preciso reintroduzir, quando consideramos a alfabetização, a escrita como sistema de representação da linguagem.

Temos uma imagem empobrecida da criança que aprende: a reduzimos a um par de olhos, um par de ouvidos, uma mão que pega um instrumento para marcar e um aparelho fonador que emite sons. Atrás disso há um sujeito cognoscente, alguém que pensa que constrói interpretações, que age sobre o real para fazê-lo o seu (FERREIRO, 2001, s.p).

Emília Ferreiro em parceria com Ana Teberosky escreveu como a criança é vista na ato de aprender e como ela deve ser vista. O conjunto de suas pesquisas e estudos, nos apresenta contribuições significativas para a compreensão de como é o processo de aquisição da leitura e da escrita. A leitura e escrita, deixam de ser um instrumento e são vistas como um objeto cultural e que ocorre a partir de estruturas novas no cérebro, envolvendo distintas áreas.

Esses estudos categorizaram o processo de construção da escrita em quatro níveis, em que cada nível tem sua nomenclatura e características específicas:

NÍVEL 1 E NÍVEL 2 – PRÉ-SILÁBICO

Nessa fase a criança já distingue desenho de letra, ela já tem consciência que para escrever são necessárias letras, formula a hipótese que para escrever utilizará certo número de caracteres e há situações que imita a escrita do adulto, reproduzindo traços típicos de escrita. Geralmente as letras que aparecem são de seu nome e não há correspondência letra/som.

 NÍVEL 3 – SILÁBICO E SILÁBICO ALFABÉTICO

Nessa fase a criança apresenta seus registros em três categorias evolutivas, passa por um salto quantitativo para o qualitativo, ela tem a crença que cada letra representa uma sílaba. Essa fase passa da transição sem valor sonoro para o valor sonoro, ou seja, primeiro ela estabelece uma letra para cada sílaba sem fazer correspondência letra/som e subsequentemente estabelece uma letra para cada sílaba estabelecendo correspondência letra/som.

A hipótese silábica alfabética é o final do nível, em que a criança estabelece correspondência letra/som, ora usando sílabas completas, ora não.

 NÍVEL 4 –ALFABÉTICO

É o nível que gera muitos conflitos cognitivos, pois a criança já conceitua mais letras para cada emissão sonora, já construiu o conhecimento que cada sílaba tem mais que uma letra, mas passa por transição, em que se vê em conflito na hora de escrever sílabas complexas, podemos dizer que escreve alfabeticamente, mas ainda não domina as questões ortográficas das regularidades e irregularidades da língua.

PRÁTICAS PEDAGÓGICAS ASSERTIVAS NA CONSTRUÇÃO DA ESCRITA

Para que o trabalho pedagógico garanta o processo de construção da escrita de acordo com as pesquisas realizadas por Emilia Ferreiro, como já foi dito, o professor tem que desconstruir sua prática voltada ao modelo empirista que historicamente via o aprendiz com receptor e não como protagonista de seu conhecimento.

Tem que colocar seus meninos e meninas em contato com textos potentes, diversificados, permeando os gêneros textuais de qualidade, com riqueza de vocabulário e cultura. Tem que ser leitor e ler para as crianças, diariamente, tem que transformar a sala de aula em ambiente de produção e autoria de registros, como listas, parlendas, trava-línguas, narrativas, bilhetes, com o objetivo de garantir a capacidade da criança de compreender informações, refletir, fazer inferências, ampliar repertório e transformando-as em conhecimento próprio.

Colocar as crianças em contato com ações reais de registros, que faz uso em sua vida cotidiana, dar significado, autoria e prazer ao ato de escrever. Essas ações devem ser realizadas frequentemente em sala de aula, ora individualmente, ora em grupos produtivos, agregando saberes entre as crianças.

A sondagem é uma estratégia qualitativa para traçar mecanismos pedagógicos adequados para a evolução das crianças em sala de aula. Ela é realizada através do gênero textual listas, dentro de um mesmo campo semântico, em que o professor envolve a criança no contexto e solicita o registro das palavras da lista, começando por uma palavra polissílaba, subsequentemente trissílaba, dissílaba e monossílaba. Para cada palavra registrada é fundamental que o professor solicite a leitura feita pela criança de sua escrita, fazendo marcações em cada trecho. É importante também ao final ditar uma frase, para analisar como a criança pensa sobre o registro.

Um exemplo de sondagem é conversar com a criança sobre os materiais escolares que ela usa, em seguida combinar que ela vai escrever alguns solicitados:

CANETINHA
TESOURA
COLA
GIZ

NO MEU ESTOJO TEM COLA.

Recursos, estratégias e propostas desafiadoras, que colocam a criança em contato com a leitura e a escrita, mesmo quando ainda não domina o código, colocam meninos e meninas em situações de aprendizagens potentes, em que precisam pôr em jogo o que sabem, para aprender o que ainda não sabem.

A concepção de aprendizagem, o planejamento e o olhar do professor e suas intervenções adequadas são os responsáveis em dar oportunidade às crianças a se encantarem com a leitura e a escrita.

O processo de desenvolvimento de acordo com Wallon(1994), é uma construção progressiva, entre o cognitivo e o afetivo, em que cada fase tem um colorido próprio, tudo isso vai se consolidar de acordo com a disponibilidade do ensinante, do aprendente e do objeto de conhecimento, sendo necessário vínculo de cumplicidade e respeito nessa tríade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Aquilo que eu escuto eu esqueço, aquilo que eu vejo eu lembro, aquilo que eu faço aprendo (CONFÚCIO, 600 a.C).

A leitura e a escrita nos acompanham a vida inteira e nossa relação com elas deve ser de amor e intensidade, pois elas não dão oportunidades de descobrir o mundo e a nós mesmos, de curar doenças, de chegar a novos lugares, de fazer novos amigos, de nos apaixonar e crescer profissionalmente de ter voz e vez na sociedade com cidadão de direitos e deveres.

Por todos esses motivos e muitos outros, nossas crianças precisam ter contato com a leitura e a escrita desde tenra idade e a escola tem que oferecer todas as oportunidades para garantir a construção do conhecimento da leitura e da escrita que é tão delicado e tão forte, pois a criança tem ideias, hipóteses e se desenvolve plenamente, principalmente quando é ofertado o real e o simbólico, o concreto e o abstrato, o que a humanidade foi construindo e nos encantando com cultura, com ciência e com a literatura.

Se temos esse universo de recursos para oferecer aos nossos meninos e meninas, já temos conhecimento de como a aquisição da leitura e da escrita acontecem, se já também temos consciência que nosso papel é fundamental para formarmos leitores e escritores competentes, por que no século XXI ainda há práticas em que a criança registra em seus cadernos, “O bebê babou na babá”? Por que ainda há crianças que são condicionadas a se relacionar ao ato de escrever às famílias silábicas?

Será que a resposta é porque a educação brasileira não prioriza o saber de suas crianças e estudantes? Que muitos professores pararam no tempo e não se atualizam e enxergam seus estudantes como protagonistas e ele como mediador?

Fica aqui mais uma provocação? O que eu faço? Como faço? E o que devo atualizar? Ser professor…e acreditar no potencial das nossas crianças é assim…olhar o outro e se olhar profundamente, para o recomeçar sempre.

 REFERÊNCIAS

BRAGA, Regina Maria; Maria de Fátima Silvestre. Construindo o leitor competente: Atividades de leitura interativa na sala de aula.1ª Edição, São Paulo: Peirópolis, 2002.

BRASIL, Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC/SEB, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 28 jul. 2020.

FERREIRO, Emilia. Reflexões sobre Alfabetização. 24ª Edição, São Paulo: Cortez, 2001.

FERREIRO, Emilia; Ana Teberosky. Psicogênese da Língua Escrita. Edição, Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

GENESCÁ, Ana Carpenter; CID, Lúcia de Araújo. Pró-Saber: Imaginação e Conhecimento.1ª Edição, Rio de Janeiro: Edições Pró-Saber, 2013.

GALVÃO, Izabel. Henry Wallon: Uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. 9ª Edição, Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

MORAIS, Artur Gomes de. Ortografia: Ensinar e Aprender. 4ª Edição, São Paulo: Editora Ática, 2000.

SÃO PAULO (SP), Secretaria Estadual da Educação. Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas. Letra e Vida: Programa de Formação de Professores Alfabetizadores. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008.

SOARES, Magda. Letramento: Um tema em três gêneros. 3ª Edição, Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.

ZORZI, Jaime Luiz. Aprender a escrever: A apropriação do sistema ortográfico. 1ª Edição, Porto Alegre: ARTMED, 1998.

Ligia Priscila Pacheco

Publicado na Revista Mais Educação – volume 3 – número 6 – Agosto de 2024</p

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